Inovação Unicamp, em 30/03/2009.
O primeiro experimento bem-sucedido em cana-de-açúcar transgênica foi feito em 1992 pelo cientista Robert Birch, professor de biologia molecular em plantas do Departamento de Botânica da Universidade de Queensland, Austrália. Na época, ele conseguiu introduzir um gene que deixaria a planta mais resistente a antibiótico. Dezessete anos depois dessa pesquisa pioneira, os cientistas ainda não conseguiram chegar a uma variedade transgênica comercial para a cana. Em laboratório e pequena escala, houve avanços; mas pesquisadores nas universidades e em empresas não conseguiram fazer uma variedade que preserve, ao longo de várias gerações, as características obtidas pela introdução de um gene na planta. E pelos próximos cinco anos, pelo menos, provavelmente continuaremos sem uma variedade transgênica do cultivo mais eficiente para a produção de etanol.
A cana transgênica foi assunto do "Workshop Bioen on Sugarcane Improvement", promovido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) nos dias 18 e 19 de março, na capital paulista. Foi mais uma atividade do Programa Fapesp de Pesquisa em Bioenergia (Bioen). Inovação acompanhou a segunda sessão do workshop, "Transgenics and cotrolled transgene expression", realizada na tarde do dia 18, com o auditório de 120 lugares lotado, o que obrigou o uso de cadeiras extras.
Participaram da sessão, como apresentadores, Helaine Carrier, pesquisadora da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), instalada em Piracicaba; Robert Birch, nome reverenciado pelos colegas de profissão pelo mérito de ter desenvolvido a primeira cana transgênica; e João Carlos Bespalhok, coordenador de biotecnologia da Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroalcooleiro (Ridesa) e pesquisador da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Como debatedores, participaram Marcelo Menossi, do Instituto de Biociências da Unicamp; Eduardo Romano, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa); e Eugênio Ulian, gerente de relações científicas da Monsanto. A multinacional copatrocinou o workshop, ao lado da Syngenta, GE Healthcare, Invitrogen e Roche.
Grandes números da economia da cana no Brasil
Em sua fala, Helaine destacou que o cultivo da cana gera pelo menos 1 milhão de empregos diretos no Brasil e agrega 70 mil produtores independentes. O uso do etanol de cana como combustível promoveu redução de emissões de gás carbônico de 43 milhões de toneladas, entre 2004 e 2008. De acordo com União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), contou Helaine, o País passará de 469 milhões de toneladas de cana produzidas na safra 2007/2008 para 1,038 bilhão em 2020/2021. A área de cultivo deve sair dos 7,8 milhões de hectares (2007/2008) para 139 milhões (2020/2021). Já a produção de açúcar pode ser ampliada de 31 milhões de toneladas para 45 milhões nesse mesmo período. A de etanol deve saltar de 22,5 bilhões de litros para 65,3 bilhões nesse prazo. A eletricidade gerada pelas usinas com o aproveitamento do bagaço de cana hoje é de 1,8 gigawatts, podendo passar a 14,4 gigawatts, elevando a participação da bioenergia dos 3% atuais para 15% em 2020/2021.
Por que e o que se estuda no assunto cana transgênica
Após essa contextualização, a pesquisadora da Esalq falou da importância de estudar a transgenia para produção de novas variedades de cana, relacionada ao fato de os pesquisadores estarem atingindo os limites do melhoramento genético clássico — aquele feito pelo cruzamento de variedades de cana selecionadas de acordo com características mais interessantes. Isso ocorre por vários motivos, prosseguiu ela. A cana, lembrou a pesquisadora, tem genoma complexo. A base genética do melhoramento, enfatizou, é "estreita" — ou seja, os cruzamentos vêm sendo feitos a partir de um pequeno número de ancestrais. A base estreita traz o risco de perda de diversidade genética, o que reduz as possibilidades de obtenção de variedades mais interessantes. Além desses aspectos, o tempo do desenvolvimento de uma nova variedade de cana por melhoramento convencional varia de 12 a 15 anos. A tecnologia transgênica, quando estiver funcionando na escala comercial, vai acelerar o processo de criação de novas variedades, afirmou Helaine.
Atualmente, os pesquisadores em genômica procuram estabelecer o mapeamento genético por meio de marcadores moleculares, com o objetivo de aumentar a eficiência dos cruzamentos no melhoramento clássico e também encontrar mais facilmente os genes de interesse para o melhoramento transgênico; estudam ainda a regeneração de plantas e a cultura de tecidos, processos necessários para o desenvolvimento da tecnologia transgênica. Robert Birch foi o primeiro cientista a introduzir um gene de outra espécie, o npt II, em uma planta de cana-de-açúcar. Ao se expressar — ou seja, ao produzir a proteína a ele associada — esse gene poderia tornar a cana mais resistente a antibióticos. O cientista australiano ainda trabalha para melhorar a tecnologia. Desde seu trabalho pioneiro, outros pesquisadores introduziram genes para resistência a herbicidas e a doenças como a folha amarela; controle de insetos; melhoria dos processos metabólicos da cana; e para transformar a planta da cana em uma "bioindústria" — programando-a, por exemplo, para produzir plástico.
Dificuldades na pesquisa de cana transgênica
A palestra de Birch estava entre as mais aguardadas. Intitulava-se: "Seremos capazes de controlar a expressão de transgene na cana-de-açúcar?" (Em inglês, Can we deliver controlled transgene expression in sugarcane?). O pesquisador lembrou que há quase 15 anos colocou a primeira cana transgênica em ensaios no campo. "A mídia percebeu que tentávamos produzir uma 'supercana' transgênica e a indústria ficou muito empolgada. Tivemos milhares de linhas transgênicas depois disso, mas nada comercialmente útil", afirmou. "A limitação chave é conseguir a expressão controlada dos genes, e resultados recentes trazem esperança de que vamos conseguir isso em um futuro próximo", identificou.
Hoje, Birch coordena um grupo de 40 pesquisadores na Austrália e trabalha com o metabolismo da cana, tentando entender o que é preciso para que a estabilidade na expressão dos genes seja alcançada. Um de seus trabalhos é investigar o silenciamento de genes. Esse mecanismo pode estar relacionado ao fato de o cultivar transgênico não manter as características ao longo das gerações. Dada a complexidade do genoma da cana — a planta é poliploide, ou seja, tem muitas cópias do genoma —, muitos cromossomos e alelos devem ser investigados para saber se há um mecanismo de silenciamento.
Mais pesquisa e mais ensaio no campo
João Carlos Bespalhok, da Ridesa, começou sua apresentação no workshop com a imagem de uma reportagem de 2005 do Jornal Cana em que havia a previsão de que em quatro anos o Brasil estaria moendo cana transgênica. "Quatro anos depois, não estamos nem próximos disso", disse. Um dos problemas que o pesquisador abordou em sua palestra foi o fato de que os clones produzidos hoje por engenharia genética convencional são melhores do que os clones transgênicos. Segundo ele, pesquisas com cana transgênica estão sendo desenvolvidas nos Estados Unidos, Austrália, China, Índia, Argentina, Colômbia, África do Sul e Brasil. Aqui, há pesquisas em cana transgênica no Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), na Alellyx, recentemente vendida pela Votorantim Novos Negócios à Monsanto, na Esalq, no Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), entre outros lugares. De 1997 a 2009, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) recebeu pedidos para ensaios de campo do CTC, Alellyx, Basf e Bayer. O CTC é quem tem mais pedidos: dos 44 ensaios solicitados, 20 são dessa instituição privada de pesquisa. A Alellyx tem 18 pedidos, e a Basf registrou cinco, entre 1993 e 1997. A Bayer fez um pedido, em 1997. A maior parte dos ensaios envolve canas transgênicas resistentes a herbicidas.
"Precisamos de ensaios em diferentes ambientes e as melhores variedades precisam passar pelos testes de segurança, o que é o grande problema das empresas", apontou. "Ainda há um longo caminho a se percorrer. Teremos mais cinco anos, pelo menos, sendo muito otimista. Não começamos ainda os ensaios para os diferentes ambientes nem os de segurança. Ainda há muitos ensaios no campo e precisamos colocar mais cana transgênica no campo se a quisermos no mercado", acrescentou.
Na abertura para debates ao final das palestras, Eugênio Ulian, executivo da Monsanto, destacou a fala de Bespalhok, da Ridesa, por conta da menção sobre a regulamentação. "Quando examinamos a questão regulatória, notamos que há muitas perguntas que só podem ser respondidas pela ciência básica não feita ainda ou feita em outros países. Minha sugestão aos líderes do programa Bioen da Fapesp é justamente no sentido de fazer algo com a pesquisa básica para responder essas perguntas", comentou ele, sem detalhar, contudo, que dúvidas seriam essas a ser respondidas pela pesquisa básica. (J.S.)