| O carro elétrico parece algo muito distante para a maioria dos brasileiros. Mas, para o presidente mundial da Renault, Carlos Ghosn, o país tem tudo para entrar nessa onda antes do que se imagina. Primeiro, porque leva a vantagem de gerar essa energia em usinas hidrelétricas, um ponto positivo para o ambiente. Além disso, ele espera uma pressão mundial, favorável ao uso da nova tecnologia, principalmente nos maiores mercados de veículos, onde o país já ocupa o quarto lugar. O executivo prevê, no entanto, que o Brasil começará a se inserir no contexto mundial do veículo elétrico somente a partir de iniciativas de governos de cidades sufocadas, como São Paulo. O salão do automóvel de Paris, que começou a ser apresentado à imprensa ontem, mostra que a indústria deu um salto significativo no desenvolvimento do carro elétrico em comparação com os salões internacionais mais recentes. Basta transitar pelas instalações da exposição para perceber o quanto se avançou nessa direção. Os primeiros modelos estão prontos para chegar ao consumidor, o mercado se organiza para recebê-los já no ano que vem e até os preços já estão sendo anunciados. A entrada do Brasil nesse contexto, mais cedo ou mais tarde, não representa, no entanto, o fim do carro flex, que usa etanol. O uso do derivado da cana para abastecer os veículos continuará garantindo fama ao Brasil por um bom tempo, segundo as previsões de Ghosn. "Estamos falando de um processo gradual", destacou o executivo ontem, durante uma mesa redonda com jornalistas estrangeiros. Se suas projeções estiverem corretas, daqui a dez anos, 10%, em média, dos automóveis vendidos em todo o mundo serão elétricos. "Isso quer dizer que precisaremos de tecnologias complementares, o que inclui o etanol", destaca. Segue também nessa linha uma outra categoria: o carro híbrido, que funciona com dois motores, um movido a combustível e outro com eletricidade. Esse tipo de veículo, usado na Europa, Estados Unidos e Japão há mais de dez anos, fará finalmente a sua estreia no Brasil. A Ford se prepara para apresentar o primeiro automóvel híbrido do mercado brasileiro no salão do automóvel de São Paulo, no fim deste mês. O híbrido da Ford que irá para o Brasil e que está sendo apresentado em Paris é um Fusion, modelo já vendido no Brasil com motor a gasolina. A fábrica do México produzirá os dois tipos. Cada um dos dois motores do híbrido funciona de acordo com a necessidade, medida pela aceleração. Na cidade, em velocidades mais baixas, o carro funciona com o elétrico. Num trajeto que permite acelerar o carro, o motor a combustão entra em operação tanto para fazer o carro funcionar como para também abastecer o motor elétrico. Por isso, esse tipo de veículo não precisa de tomada como o totalmente elétrico, o que também dispensa qualquer tipo de mudança na infraestrutura de abastecimento das cidades. A desvantagem é que polui mais que o puramente elétrico, mas bem menos que o carro convencional. O carro da Ford que vai para o Brasil já foi testado com a gasolina misturada ao etanol, um dos empecilhos apontados pela Toyota para levar o seu híbrido para o mercado brasileiro. Mas essa será ainda uma novidade para poucos. O preço do Fusion híbrido no Brasil, ainda não divulgado, deverá passar de R$ 100 mil. De qualquer forma, testar um híbrido ajudará o Brasil a experimentar novas formas de mobilidade. Na Europa, as mudanças estão aceleradas. A Toyota apresentou ontem, no salão de Paris, a versão "plug-in" do Prius, primeiro híbrido vendido em massa no mundo. Ao poder ser carregada também na tomada, a nova versão conseguirá percorrer 100 quilômetros com 2,6 litros de combustível. A empolgação em torno dos carros elétricos na França surge em contraste com os dois anos seguidos de queda de vendas de veículos na Europa, desde a última edição do Paris Auto Show, que será aberto ao público amanhã. Os mercados mal começam a se recuperar da crise. Por isso, falar em novas tecnologias pode ajudar a indústria a atrair a atenção do consumidor. A Peugeot apresentou ontem o 3008 Hybrid4, o primeiro híbrido que funciona com diesel. A Citroen também prepara o seu elétrico, chamado de C Zero. Os modelos também tendem a encolher cada vez mais. A Renault mostrou ontem o protótipo de um carro estreito, com espaço somente para o condutor. Como nome de Twizy, o modelo deve chegar no mercado europeu no fim de 2011, ao preço de um triciclo, segundo a empresa. Ghosn calcula que daqui a dez anos o mercado mundial terá 20% de vendas de carros chamados de "ambientalmente amigáveis" - metade de elétricos e a outra metade formada por híbridos. Durante apresentação dos carros para a imprensa mundial, ontem, Ghosn já anunciou os preços dos primeiros elétricos da francesa. O modelo Fluence, um sedã, chegará aos europeus, daqui a um ano, custando " 1,3 mil. O mesmo carro, com motor a gasolina, será vendido no Brasil. O preço não foi anunciado. A empresa abrirá, nos próximos dias, na Europa, inscrições pela internet para a reserva do Fluence elétrico e também da versão elétrica do utilitário Kangoo. Segundo Ghosn, também presidente da Nissan, a empresa japonesa decidiu suspender a inscrição dos pedidos do seu modelo elétrico, o Leaf, em razão da alta procura. A indústria consegue manter os preços dos carros convencionais na versão elétrica graças aos incentivos governamentais. O passo que os europeus deram na mudança energética dos veículos graças ao dinheiro público pode se estender pelo mundo, segundo Ghosn. "Há muitos motivos para isso", afirma. "Não podemos esquecer da época em que o preço do barril de petróleo subiram. Sem falar nos riscos de desastres ambientais com petróleo. Não estamos muito longe disso." Os custos com as baterias - um dos maiores empecilhos ao desenvolvimento do carro elétrico - baixaram 50% desde o início do programa há quatro anos. "E isso não para por aqui", diz Ghosn. Para a indústria, hoje não há como pensar em vender o carro elétrico sem dinheiro público. "Mas a única forma de um governo ser popular com dinheiro público é usando as taxas cobradas da população em favor do ambiente", diz Ghosn. |
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