A realização dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento necessários para levar os motores usados nos carros nacionais a patamares de performance e emissão de gases equivalentes aos dos automóveis norte-americanos e europeus depende, basicamente, do aumento do grau de exigência do mercado consumidor e da legislação do País. De acordo com especialistas, os motores da indústria brasileira foram desenvolvidos para atender aos requisitos atuais quanto a poluição. É por isso que não têm o grau de sofisticação tecnológica dos da Europa e dos Estados Unidos, onde a lei permite níveis de emissão mais baixos que no Brasil.
A questão sobre a tecnologia dos motores usados no Brasil veio à tona com a divulgação, pelo Ministério do Meio Ambiente e o Ibama, em 15 de setembro, de uma "Nota Verde". A análise do MMA organizou um ranking com veículos mais e menos poluidores e mostrou que veículos movidos a etanol são mais poluentes do que os a gasolina, contrariando estudos que mostram o contrário e gerando protestos das entidades ligadas a produção de álcool combustível e do setor automotivo. As críticas se relacionaram à metodologia da "Nota Verde", e um dos problemas que ganhou maior destaque foi o fato de o estudo não ter levado em consideração a emissão de gases de efeito estufa, em especial o gás carbônico, ponto em que o etanol leva grande vantagem sobre a gasolina. Diante das críticas, o MMA afirmou que vai rever a metodologia da "Nota Verde".
Segundo fontes da indústria e da academia que Inovação procurou, o principal gargalo para a inovação e a elevação do patamar tecnológico dos motores usados no Brasil está no mercado: os veículos mais vendidos no País são os de cilindrada mais baixa. Esse mercado não paga o custo da pesquisa e desenvolvimento que levaria a motores mais sofisticados e menos poluidores.
Motores flex
A maior parte das vendas de veículos novos hoje no Brasil é de veículos flex – foram 1.562.139 até agosto deste ano, contra apenas 64.732 movidos apenas a gasolina, apontam estatísticas divulgadas pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Há espaço para aperfeiçoar os motores flex, mostra estudo divulgado pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) durante seminário na Câmara dos Deputados realizado em 14 de outubro em Brasília. Alfredo Szwarc, consultor de emissões e tecnologia da Unica e um dos autores do estudo, observa que a realidade do mercado desestimula os investimentos em motores com tecnologia mais sofisticada. Segundo a Anfavea, 47,4% dos quase 1,6 milhão de automóveis vendidos até agosto no atacado (para concessionárias e lojas de veículos) são modelos de 1.000 cilindradas, os mais baratos e com motores tecnologicamente mais simples.
Szwarc trabalhou com Francisco Nigro, da Escola Politécnica da USP, no estudo sobre eficiência do motor flex. "Já houve um tempo em que o carro movido a etanol era mais eficiente, energeticamente falando, que o movido a gasolina", disse Szwarc em entrevista a Inovação. A eficiência energética é a relação entre a energia produzida pelo motor para movimentar o carro e a energia fornecida pelo combustível que ele consome. Quanto mais energia for dissipada pelo motor para transformar a energia contida no combustível em movimento do carro, pior é sua eficiência energética. "Nosso trabalho mostra que, no passado, o carro a álcool foi mais eficiente ― quando os motores utilizavam carburador, eram menos potentes e tinham desempenho inferior", acrescenta. O estudo divulgado pela Unica aponta ser possível fazer aperfeiçoamentos nos motores flex para maximizar os benefícios do etanol, como trabalhar para ter um maior calor latente de vaporização e maior octanagem.
Quando se fala de um motor dedicado, ou seja, que usa apenas um tipo de combustível, é mais fácil e eficaz melhorá-lo tecnologicamente do que quando se trata de um bicombustível, diz o consultor. "Poderíamos avançar [na evolução dos motores flex], mas, por uma questão de custo, não o fazemos. O limitante do custo está relacionado à questão do mercado, à classe de veículo mais vendida no Brasil [os chamados carros populares]", acrescenta. "O que existe hoje no País são motores que passaram por inovações incrementais para poderem usar a mistura gasolina-etanol; eles não mudaram o paradigma da indústria e hoje apresentam menor eficiência quando comparados a motores movidos apenas a gasolina".
Legislação ambiental: empurrão para a inovação em motores
Um dos grandes indutores de inovação, no caso dos motores dos veículos, tem sido a legislação ambiental, que limita a emissão de poluentes e, mais recentemente, de gás carbônico eliminado pelos escapamentos dos automóveis. Dessa forma, os motores evoluem tecnologicamente de acordo com as exigências. Leis mais duras, como as europeias e norte-americanas, levaram o setor a inovar para melhorar esses quesitos. Então, na visão das empresas, não se trata de haver motores tecnologicamente menos ou mais evoluídos no Brasil: trata-se de motores que atendem a uma legislação menos restritiva e, por isso, menos exigente em termos tecnológicos. A indústria também argumenta que o percentual de 23% de álcool anidro adicionado à gasolina (o governo estuda aumentar para 25%, por causa da queda do preço desse álcool), maior que praticado nos países industrializados, resulta em adaptações nos motores que não favorecem a diminuição do nível de emissões.
"Temos vários tipos de motores no mercado; alguns mais antigos, que demandam maior esforço para cumprir o que mandam as leis atuais, outros bastante modernos. Há uma tendência de os motores se modernizarem rapidamente nos próximos anos ― tudo está vinculado à exigência legal do País", analisa Fábio Ferreira, gerente de desenvolvimento de produto da Divisão Gasoline Systems da Robert Bosch América Latina. "Mesmo os motores mais antigos atendem a legislação brasileira, que está evoluindo rapidamente. Claro que estamos atrás das legislações mais apertadas, como a dos Estados Unidos, por exemplo, que é a que estamos seguindo. Mas, repito, os motores atendem à exigência do mercado brasileiro", continua. "O motor está casado com a exigência do mercado. À medida que o mercado passar a exigir mais, o motor vai evoluir", aposta.
Ferreira destaca a importância do trabalho de desenvolvimento nos motores usados no Brasil para atender as características do combustível local. A engenharia no setor no País ainda é mais voltada para adaptações para o mercado brasileiro. "O motor tem características especiais no Brasil, mas nos conceitos básicos é o mesmo motor que se encontra lá fora", diz. Hoje, segundo ele, existe uma linha de motores com injeção direta de combustível, conhecida pela sigla GDI, que é bastante avançada. O Brasil está bem longe dessa tecnologia atualmente. "É uma tecnologia muito focada em [redução de] consumo de combustível e em [melhoria de] performance, de grande torque, com uma força muito grande para movimentar o veículo. São motores muito mais caros e que não são estão disponíveis no mercado brasileiro ainda. O Brasil está muito distante do nível tecnológico desses motores", acrescenta.
Multinacional italiana como exemplo
A Fiat Powertrain é uma empresa do grupo Fiat que produz motores para o mundo todo com presença também no Brasil ― uma nova planta de produção entra em operação até o final do ano em Betim (MG). Na FPT é possível encontrar exemplos didáticos das duas situações: a de um de motor que foi adaptado para o Brasil porque há mercado consumidor, e outro que é tecnologicamente melhor, mas não virá para o País, ao menos por enquanto, pois aqui o mercado para esse tipo de produto é restrito. A empresa trouxe da Europa o motor turbo 1.4 T-Jet, que hoje equipa os carros modelo Linea, um sedã médio. "É um motor europeu que foi desenvolvido para usar o combustível brasileiro, mas a tecnologia nele é a mesma usada para a Europa", afirma Luiz Rachid, gerente de desenvolvimento de motores Fiat Fire na América Latina.
Um motor desenvolvido no exterior não é simplesmente transplantado para o carro brasileiro. "Há um processo de verificação de todos os componentes, por causa do funcionamento com esse combustível diferente [álcool misturado à gasolina], e uma calibração do motor, porque a central eletrônica precisa saber qual combustível é esse, já que cada combustível reage de uma forma diferente na câmara de combustão", explica ele, se referindo ao processo de 'tropicalização' ― nome que a indústria automobilística usa para se referir à adaptação de tecnologias desenvolvidas no Hemisfério Norte para as condições brasileiras.
O segundo exemplo se encaixa no que o estudo da Unica indica em relação a como opera a indústria quando o assunto é inserir motores mais evoluídos tecnologicamente. Trata-se de um lançamento recente da FPT, o motor MultiAir, para veículos a gasolina, apresentado no Salão de Genebra em março deste ano. Demorou dez anos para ser desenvolvido. Segundo Rachid, esse novo motor traz ganhos em performance e torque e reduz o consumo e as emissões, atendendo aos padrões europeus. Esse motor equipará os veículos mais sofisticados da Fiat e está disponível no mercado europeu. A empresa avalia se há mercado no Brasil para o MultiAir. De qualquer forma, Rachid garante que a nova planta da FPT em Betim pode produzir essa linha de motor, caso a empresa decida trazê-lo para o mercado nacional.
O motor MultiAir é formado por um sistema de acionamento hidráulico das válvulas de aspiração comandado por uma central eletrônica ― e essa central é o 'pulo do gato' dessa tecnologia. Ela consegue comandar a abertura e o fechamento das válvulas de aspiração cilindro a cilindro, conforme a situação de trânsito em que se encontra o veículo, o motor e o motorista. Capta a condição de operação do motor ― baixa ou alta rotação, solicitação do motorista, velocidade, entre outros parâmetros. "Hoje, todo o controle de ar aspirado no motor é feito através da borboleta. No MultiAir, a dependência da borboleta é mínima, só para a marcha lenta. Não se depende mais da borboleta para controlar o ar admitido; todo o controle é feito através das válvulas de aspiração. Com isso, reduz-se a perda de carga e o atrito, e o controle é muito mais preciso", explica Rachid. Por exemplo, em marcha lenta, a central eletrônica envia um comando que provoca atraso na abertura da válvula de aspiração. Com isso, a mistura entre ar e combustível dentro da câmara de combustão é mais homogênea, melhorando a combustão em si. A queima mais eficiente do combustível resulta, em consequência, em menor emissão.
Para reduzir emissão, tecnologias focam corte de consumo
Fábio Ferreira, da Bosch, explica que quando se trata de reduzir a emissão de gás carbônico a inovação buscará melhorar o consumo. "O outro lado que precisamos observar é a emissão de poluentes, que é pequena, mas altamente danosa à saúde. Nesse caso, trabalhamos com tecnologias concentradas para esses gases", continua. É o caso da tecnologia flex start desenvolvida pela Bosch, que aquece o álcool e elimina uma de suas desvantagens: quando o motor está frio, o etanol não queima bem e gera hidrocarbonetos, que resultam em aumento da emissão de CO2.
Segundo ele, as tecnologias existentes no mercado darão conta das novas normas que devem ser adotadas no Brasil nos próximos anos, no âmbito do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve). Os avanços vão envolver desenvolvimentos tecnológicos para o catalisador. "Porém, o nosso desafio no Brasil ― e é aí que desenvolvemos muita coisa localmente ― é o álcool. Para o álcool combustível não há lá fora tanta experiência e teremos de continuar a trabalhar, como fizemos com o flex start, que desenvolvemos aqui", analisa o executivo da Bosch.
O etanol pode ser a oportunidade nacional de vender tecnologia no exterior. "Podemos fazer o caminho inverso: ajudar a melhorar as emissões de outros países, que adotem o álcool combustível, porque já temos a tecnologia disponível para o mercado brasileiro e poderemos desenvolver novas", completa. Ele lembra que a Suécia e os Estados Unidos já usam carros flex, e nada impede as empresas de fazerem parceria com o Brasil para o desenvolvimento tecnológico desses motores.
Política pública pode ajudar
Mas tudo isso precisa de um pequeno empurrão para acontecer, e esse empurrão deve partir do próprio Brasil. "Não existe uma motivação para a indústria automobilística avançar mais [em termos tecnológicos] para atender o que é exigido [pela legislação de emissões de poluentes e de gases estufa]", afirma Alfred Szwarc, da Unica. Nesse caso, o papel da política pública para a promoção da eficiência energética é fundamental, diz ele. Trata-se de um tema ainda pouco trabalhado no Brasil, segundo o consultor. "Na Europa, há desde políticas focadas no sucateamento de veículos, de forma a aumentar as vendas dos novos, até a desoneração fiscal para veículos que são mais econômicos no consumo de combustível", destaca. O Brasil também precisa estimular a formação de engenheiros e ampliar o número de centros de pesquisa com foco em engenharia automotiva que sejam equipados com laboratórios que tenham estrutura e fôlego para trabalhar junto com as empresas, defende o consultor.
O consumidor
Além disso, as empresas precisam lidar com a questão mercadológica e, nesse sentido, o mercado brasileiro não é estimulante para o desenvolvimento de tecnologias sofisticadas para motores, pois o volume maior de vendas está na faixa dos carros populares. "Nosso consumidor é menos exigente em relação à tecnologia do veículo. Ainda que gaste muito com um rádio sofisticado, por exemplo, não vai pagar a mais para ter um veículo com mais itens de segurança", analisa Szwarc. "Hoje a gente desenvolve tecnologia aqui, e o flexfuel é exemplo disso. Mas por questão estratégica de volume, de mercado, a FPT produz determinados tipos de motores na Europa, na Argentina, etc. A empresa tem essa flexibilidade, e busca o que for mais viável", afirma Luiz Rachid, da Fiat Powertrain.
Fonte: Inovação Unicamp